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O programa oculto da coligação (d' A Vida na Terra, 5/06)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.06.15

Enquanto no futebol mundial se fervilha com a descoberta (?) da alta corrupção na FIFA, a Europa das estrelinhas começa a inclinar-se como a torre de Pisa. As cabeças visíveis que lideram o projecto europeu revelam-se simples marionetas de um outro projecto que nada tem a ver com o inicial e com aquele que apresentou nas eleições europeias.


Lá como cá, aqui fervilha-se com a mudança de treinador no Benfica e no Sporting, enquanto a coligação que gere actualmente a política nacional apresenta o seu programa eleitoral sem dizer, desta vez, o que vai fazer exactamente. É que da primeira vez ludibriou completamente os eleitores.


Os eleitores mais atentos e experientes já sabem o que a coligação vai fazer na área do trabalho e da segurança social, o núcleo digamos assim, o coração do país, porque se trata da vida das pessoas, a área mais sensível, a área que devia ser mais defendida e acarinhada, como estão a fazer os gregos mesmo na situação de encostados às cordas.


Mas não é apenas no núcleo, no coração do país, que a coligação espeta o estilete (ando a acompanhar as séries da Miss Marple e do Poirot), é nos recursos essenciais: banca, energia, comunicações postais, telecomunicações. Agora esfregam as mãos ao transporte aéreo, ao transporte urbano e à agua.


Alguém tem dúvidas sobre o programa oculto da coligação?


1. Cortes nas pensões;

2. continuação da redução do valor trabalho, isto é, trabalho precário, subemprego, formação/estágios sem perspectivas; 

3. aumento de impostos, taxas, coimas;

4. continuação da privatização dos recursos nacionais;

5. colocar a economia ao serviço da finança, isto é, os cidadãos ao serviço da dívida;

... E a lista de malfeitorias continua. 


Mas não se pense que os socialistas estão muito melhor intencionados. Também querem ir ao coração do país, isso mesmo, à segurança social.

O que fizeram eles do programa Novo Rumo?, o que fizeram eles da unidade em fundo verde e com música inspiradora e que respirava paz entre os homens de boa vontade?, o que fizeram eles de Seguro?

   

E agora? Como votar? Como confiar num projecto e num programa? Como sair desta alternância viciada?

Pois é, falta-nos um projecto novo, mas acima de tudo proposto e gerido por uma nova cultura. Uma cultura de inteligência prática, responsabilidade, colaboração.

É por isso que a minha esperança reside agora nas novas gerações.

 

 

 

 

 

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publicado às 10:47

Último episódio da Saga Portucalense: o fim de um país

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.11.10

Este é mesmo o último episódio da Saga Portucalense, o fim de um país tal como o conheci ou pensei conhecer. Aliás, o Vozes Dissonantes andou sempre à volta desta triste saga, sobretudo no seu período de vida blogosférica, de Agosto de 2007 a 1 de Novembro de 2010: 3 anos e 3 meses.

Têm aqui tudo o que consegui destacar, baseada nas minhas limitadas deduções é claro, porque não temos acesso aos dados que importam, os que nos dão não são fiáveis.

É só linkar a palavra-chave Saga Portucalense, está lá o essencial.

 

Manterei aqui a lista dos links actualizada, porque estão a surgir novos lugares blogosféricos interessantes e virados para o futuro, embora num país sem futuro.

 

Mas, coragem, gerações mais novas, não é obrigatório ficar aqui a vegetar, aproveitem todas as hipóteses possíveis que a vida vos der. Se não vos forem dadas, procurem-nas, inventem-nas, sejam criativos. Para já estudem, apliquem-se, não se conformem com a educação normalizada socialista, leiam, procurem, exercitem a reflexão.

O vosso futuro não está irremediavelmente colado ao desastre nacional, à decadência nacional. Libertem-se de destinos medíocres que vos querem aplicar, das propostas de uma vida superficial e sem princípios, essa via só vos levará à decadência. Esse caminho é, aliás, tão velho como o caminho palmilhado pela barbárie no seu percurso cultural difícil e penoso.

O vosso futuro dependerá da vossa criatividade e do vosso desejo de autonomia. É claro que, no séc. XXI, esta autonomia é desenhada numa interdependência, só quem perceber isso se irá adaptar aos novos desafios.

Palavras-chave: reflexão, criatividade, rapidez, flexibilidade, relativa autonomia, interdependência, capacidade de escolha, decisões rápidas e eficazes, consciência baseada no respeito pelo grupo e pelas prioridades, acordos leais.

Já perceberam a ideia geral, não é?

 

 

De resto, nada mais a acrescentar. Gostei de aqui vir. Ao acompanhar esta triste saga portucalense, acabei por perceber melhor o meu próprio percurso. E isso foi muitíssimo útil, pois permitiu-me mudar a minha perspectiva e perceber finalmente as grandes ilusões e as grandes esperanças logradas. A idade aqui também tem um papel importante, claro está. A partir de certa altura, simplesmente não queremos perder tempo, o tempo passa a ser precioso.

 

Continuam a ouvir-me no Rio sem Regresso, n' As Coisas Essenciais e, em óptima companhia, na Farmácia Central.

Um abraço blogosférico, sobretudo às gerações que herdaram um país destruído e dependente, que a minha geração, e as antecedentes, lhes vão deixar sem terem responsabilidade alguma nisso.

E um sorriso, a nossa melhor aquisição cultural enquanto espécie, a mais poética e luminosa.

Que a boa sorte e a inspiração (que é sempre divina), vos acompanhem sempre, queridos Viajantes!

 

 

 

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publicado às 10:55

A Saga Portucalense

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.09

Dedico este blogue aos bloggers da nova geração, essas vozes dissonantes que se destacam da mediocridade geral, que não se conformam com a mediocriodade geral e que se afirmam livres, autónomas.

 

Vozes assim são raras e nunca como hoje tão necessárias num país em ruínas...

 

A Saga Portucalense ainda vai continuar por muitos anos. Muitos episódios de filme de série B (ou pior, como os que vivemos actualmente) se irão desenrolar. E nem os seus habitantes (estranhos habitantes) se poderão mostrar escandalizados, porque escolheram a ficção em vez da realidade.

 

É por essas vozes que se destacam que vale a pena ter-me debruçado neste teclado. Vou, pois, e durante alguns dias, deixando aqui os links a essas vozes:

 

E começo pelo Bruno Alves com O Pântano, que podemos ler n' O Insurgente e no Desesperada Esperança.

 

O mesmo termo pântano, utilizado por um ex-primero ministro que se refugiou na ONU, também já tinha inspirado o John do Jardim de Micróbios e não resisto a colar aqui a parte final do post, digna de um cenário de filme:

 

"... Um verdadeiro pântano: lama, água estagnada e fedorenta, vegetação decrépita, nuvens de insectos à procura do sangue dos incautos. Não conhecemos o significado de "responsabilidade". "Mérito" é um conceito igualmente obscuro, apesar de haver agora um proto-partido que até inclui a palavra no seu nome. A "dignidade", essa, naufragou há muito. Se num assombro todos os casos acima citados - e os outros - fossem resolvidos, não ficava pedra sobre pedra neste país. Teríamos de fazer como aquele rei do inigualável Monty Python and the Holy Grail: construir castelo atrás de castelo no pântano, até que haja um que não se afunde, suportado pelas fundações submersas dos outros todos. E daí, talvez seja mesmo essa a solução. Como as coisas estão, é isso ou ir bugiar para tão longe quanto possível. "

 

 

Retomo também aqui a série de posts de Pacheco Pereira no Abrupto: Tudo está a mudar, tudo está na mesma. E a sua série Notas soltas quase sem tempo: situacionismo; o papel de Mário Soares e Alegre; reveladora indiferença; interferir por acção e interferir por omissão. E finalmente, Para se perceber a "asfixia democrática".

 

 

Na manhã seguinte: E a série Notas soltas quase sem tempo de Pacheco Pereira, no Abrupto continua: A 'operação Diário de Notícias; Deliberada censura; Fazer o mal e a caramunha.

 

Estas eleições legislativas, já o disse aqui, vão decidir o nosso futuro como país, a nossa viabilidade, de uma forma determinante. Estamos próximos de uma fractura social muito semelhante à que existiu no PREC. Há uma dramatização no ar, a manipulação de informação, a tentativa de tudo controlar. Claro que isso não se vê à vista desarmada e os distraídos não reparam em pormenores.

 

Pensar na simples possibilidade de uma reedição PS já seria um pesadelo, mas a possibilidade de uma coligação PS-BE é já o suicídio assistido, a eutanásia que eles tanto prezam.

 

Se as pessoas estivessem mais atentas, nunca deixariam passar certos pormenores: o estilo das campanhas, por exemplo, o espectáculo, o conteúdo do discurso, a histeria, o apelo à resposta emocional, a cor das bandeirinhas... pormenores.

 

Apesar da opinião dos jornalistas que as têm acompanhado, agradou-me a sobriedade e discrição das campanhas do PSD e do CDS-PP. É claro que no país isto é inédito, mas é esse o tom certo numa altura de graves dificuldades financeiras, em que muitas pessoas se sentem inseguras em relação ao futuro.

O tom certo é o do debate ponderado, a troca de ideias, o esclarecimento de dúvidas. Esse é o tom certo para uma campanha numa fase tão precária e complexa do nosso percurso.

 

Todos os casos e contra-casos que forem engendrar para perturbar a campanha e o período de reflexão do eleitor é da maior irresponsabilidade. Esse é mais um pormenor a que as pessoas deveriam estar atentas.

 

Tudo está em aberto, nada é previsível neste momento. Podemos apostar num ou noutro cenário, mas são apenas hipóteses... E seja como for, já se percorreu um caminho em terreno adverso, já se defenderam ideias em campo minado.

Há valores de que não podemos abdicar sem perder parte da nossa humanidade. A autonomia é um deles. A capacidade de escolha é outro. Uma cultura da vida, não uma cultura da morte. Valores como a responsabilidade individual, não a desculpabilização colectiva. São esses os valores que respeitam a dignidade de cada um, o seu valor intrínseco.

 

 

A dois dias do Dia D:

 

A serenidade: Sempre atenta a pormenores: a serenidade de Manuela Ferreira Leite a contrastar com a histeria da máquina socialista. A simplicidade da campanha laranja lembrou-me os tempos genuínos de 76. Também Marcelo Rebelo de Sousa o disse ontem, era o mesmo espírito, a mesma unidade. 

A serenidade será sempre mais forte do que a histeria, aconteça o que acontecer. Essa é a dimensão de um líder, a sua densidade, a sua consistência.

Foi um longo caminho em terreno adverso, com tudo a ser controlado, jornalismo caseiro, comentário doméstico, mas o PSD reestruturou-se, uniu-se, reencontrou a sua alma original.

A unidade do PSD, agora recuperada, essa chamade novo acesa, terá de continuar. Aconteça o que acontecer...

 

Agora só mais alguns pormenores: de todas as pessoas ligadas à vida política do país, Marcelo Rebelo de Sousa era daquelas que eu diria que nunca se deixaria surpreender por nenhum facto político acontecido ou por acontecer. Ele simplesmente sabe tudo, pensei, conhece os cantos à casa, mesmo de olhos fechados, ouve aqui e acolá, junta as peças do puzzle e até antecipa o que vem aí. Certo? Errado.

Ontem vi-o visivelmente preocupado. Vou tentar juntar algumas frases: ... ataque ao Presidente sem precedentes... a pensar nas próximas presidenciais... (estas foram ditas num jantar formal já não sei de quê). A máquina socialista andou bem... com todos os meios mais sofisticados... Quem normalmente nunca teria qualidades para chegar onde chegou... Agarrado ao poder porque não tem mais nada... um arrivista... (estas foi no programa da RTP1 num frente a frente com António Vitorino).

 

Também Pacheco Pereira e Lobo Xavier não escondiam a repulsa pelos comentários de António Costa na Quadratura do Círculo. Pacheco Pereira chegou aos termos são perigosos... capazes de tudo...

Nunca os vi tão eloquentes. O ambiente aqueceu, aliás ficou ao rubro. António Costa concluiu ameaçador: Espero que o PS sozinho consiga mais deputados que o PSD e o CDS juntos... Não percebi para quê, mas não parecia que lhes iria enviar chocolates.

 

Chegámos ao ponto mais crítico da nossa história colectiva, desde a mudança de regime, disso eu tenho a certeza. (Fiquei perplexa com a negação de Mário Soares, que não, que não tinha apelado à coligação PS-BE... Mas se eu ouvi!?)

Agora passamos pelos alibis para esconder desvios, os alibis para esconder incompetências, os alibis para esconder a realidade de país falido.

 

A quadriga socialista aí está, como previsto, a lançar lama para todos os lados. Mas até o President? O rosto de Marcelo Rebelo de Sousa dizia tudo.

 

 

E no entanto... olhando para trás, o que agora me incomoda é a cooperação estratégica... aquela cooperação estratégica... sim, a cooperação estratégica...

 

 

Na noite do Dia D:

 

Uf!... Ainda bem que não sou só eu a pensar assim... Já me sinto mais acompanhada!

 

 

 

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publicado às 10:18

Como iremos passar o testemunho às novas gerações?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.06.09

E como o país se transformou mesmo num manicómio, aqui vai um post magnífico de João Carvalho, Mistério resolvido, no Delito de Opinião.

 

Parece que o problema da nossa sobrevivência como país está mesmo nos transportes!

E que ainda por cima assegura empregos!

 

Enquanto os gestores do poder económico e político utilizarem uma linguagem desactualizada, completamente inadequada aos desafios actuais, não vamos a lado nenhum.

Mesmo nos debates televisivos, a pobreza da sua argumentação é mais do que evidente e causa-me verdadeiros calafrios.

 

Como iremos passar o testemunho às novas gerações? Tal como nas estafetas, vamos já com um atraso considerável, aos tropeções, tendo falhado os treinos necessários, uma tristeza... delapidaram-se recursos, financeiros e humanos, oportunidades históricas perdidas, e ainda se dão ao luxo de nos vir tentar vender as suas teorias gastas e medíocres?

 

Por isso gostei tanto do post do João Carvalho!

 

 

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publicado às 23:17

Uma Política com valores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.02.09

Uma Política com valores, como a verdade e a transparência, o respeito pelo cidadão-contribuinte, o sentido de comunidade e de bem comum, é a que permite restaurar a confiança no Estado e nas instituições-chave da democracia e a que melhor prepara o país para os novos desafios.
Uma Política para o séc. XXI que em vez de entender o poder como controle e domesticação, com uma tendência para intervir e condicionar, respeite a iniciativa e criatividade das comunidades e do país em geral, respeite o cidadão, esteja aberta à sua participação activa e dê espaço a decisões e escolhas, livres e responsáveis.
Por isso, a minha esperança está nas novas gerações. A abertura e receptividade à colaboração activa dos jovens, muitos deles talentosos em diversas áreas fundamentais (economia, gestão, política, sociologia, pedagogia, novas tecnologias, psicologia social, etc.); que debatem ideias, analisam e aprofundam; que não perdem tempo e energias com questões laterais e superficiais que condicionam actualmente qualquer intervenção; que estão habituados a trabalhar em equipa; que sabem organizar e concretizar projectos, com sentido de responsabilidade, avaliando o seu próprio trabalho em função dos resultados, a flexibilidade necessária para corrigir a rota e as estratégias e a maturidade para respeitar o interesse comum de uma comunidade e de um país.

Os recursos humanos são a maior riqueza de um país.
Ainda espero conseguir analisar aqui que o problema do país está mais ao nível da gestão dos recursos humanos, seja pública seja privada, do que nos recursos humanos propriamente ditos. Não admira que os melhores estejam a debandar para outros países.
Muito por fazer, não é?


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publicado às 15:36

A cultura da amabilidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.12.08

Depois de Jorge Luís Borges me ter acompanhado neste Verão, e recentemente ter descoberto este maravilhoso A Pesca à Linha – algumas memórias de Alçada Baptista, ficou-me esta ideia de toda uma época que cultivava a amabilidade. Toda uma época que se está a esfumar...


A forma áspera e rude como as pessoas se relacionam, o ódio que pressinto como sentimento dominante, a noção de desequilíbrio ético e moral, a ausência de respeito pelas referências porque deixaram de ser referências... tudo me desgosta.
Os afectos são uma âncora num mundo assim... já o disse aqui também. Cuidar dos afectos.


Num país onde tantas vozes se desencontram e sobrepõem, tudo me soa mais a desafinação que outra coisa. Vozes dissonantes devia soar a vozes diversas, em que cada uma é única, liberta, autêntica. A cada um a sua voz, para um conjunto harmonioso de vozes...


Embora a tenha definido como estranha, a minha geração, actualmente no poder, tem a responsabilidade de pegar no melhor das gerações anteriores, e de lhe dar continuidade. Como me parece que está a falhar esse propósito, cheia de si própria e esquecida do essencial, que surjam então no cenário as gerações seguintes (a minha esperança), mais discretas, sensatas, educadas, cultas, tolerantes, dialogantes, no fundo, mais adequadas ao séc. XXI.


A sociedade do espectáculo já era. Pode ainda deixar marcas culturais, erosões sociais duradouras, mas... já não será referência para ninguém na época actual. O que precisamos para lidar com os desafios que nos esperam não são egos insuflados, delirantes, mas mentes brilhantes e analógicas.
Deste marketing político, de palanque armado a esconder bastidores onde a pobreza existe, irá surgir essa nova consciência abrangente. Que dará uma volta às prioridades, inevitavelmente. Não se tratará apenas de ajudar os mais desfavorecidos, tratar-se-á de questionar toda uma organização social que distingue os seus cidadãos nos seus direitos fundamentais.
Vivemos tempos estranhos e nada amáveis. Mas tudo tem o seu ocaso, tudo se esgota no seu próprio vazio.


Pelas minhas viagens blogosféricas recentes, já vi muitas vozes inspiradas... e nem imaginam a alegria que essa descoberta me deu! Não, não podem imaginar... São décadas já... de mediocridade a sobrepor-se ao melhor de nós, de erosão de valores, de esquecimento do que é essencial.
Que os Viajantes que aqui passam levem também deste lugar algum do carinho com que o desenhei, e quem sabe?, a esperança de uma construção ou reconstrução, ou de um fio condutor, dessa cultura da amabilidade, de gerações que a cultivaram.
Um Natal amável para todos!

 

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publicado às 13:47

A mediocridade da nossa democracia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.04.08

Contrariamente à auto-satisfação geral, desde a geração histórica que, de lágrima nostálgica, afirma a sua autoria, até aos mais jovens que já nasceram nela… não me revejo nesta democracia.

Acho que há uma análise e uma avaliação geral muito superficial destes 34 anos.

Por isso me agradou tanto o discurso de Paulo Rangel nas comemorações do 25 de Abril do ano passado! E, este ano, ver três jovens na tribuna, com um discurso que já apela à verdadeira cidadania e a uma democracia de qualidade, a uma nova consciência democrática abrangente (Verdes, BE e CDS/PP).

Numa democracia de qualidade os gestores do poder político tratam os cidadãos como cidadãos de pleno direito, prestam contas do que andam a fazer, justificam qualquer mudança de rumo, abrem o jogo.

Numa democracia de qualidade os gestores do poder político não se auto-elogiam ou enxovalham os opositores na Assembleia da República, porque respeitam os cidadãos que a Assembleia da República representa.

Numa democracia de qualidade não se utilizam discursos de lógica de feirante, como o discurso utilizado há uns meses, logo após a reunião extraordinária do conselho de ministros no Dia de Reis – os tais reis magos, lembram-se? –, pelo ministro das Finanças, de que já não iriam pedir mais sacrifícios aos portugueses. E esta é a linha com que irão tentar tecer a teia das ilusões para preparar as eleições em 2009. A moda pegou nos socialistas, todos cantam agora esta canção em uníssono.

Entretanto ontem, nas notícias da Antena 1, a informação de que ainda há 27.000 famílias em Portugal a viver em barracas. E há dois dias, na mesma Antena 1, a notícia de mais não sei quantos portugueses a trabalhar como escravos em Espanha! A polícia judiciária, que terá desmantelado esta rede de novos esclavagistas (em plena Europa dos tecnocratas…) terá mesmo comentado a completa ausência de respeito pela dignidade humana que esses indivíduos revelam…

Penso que estas notícias são a resposta correcta a estes discursos socialistas de que conseguiram controlar o défice e que terão terminado os sacrifícios para os portugueses. Uns vivem na pobreza, outros têm de emigrar nas condições mais precárias.

Discursos como estes são de uma superficialidade confrangedora que só nos podem deixar irritados com a fraca conta que revelam da nossa capacidade de raciocinar, fazer contas, analisar, etc.

Discursos como estes só demonstram o quanto ainda temos de pedalar para nos tornarmos uma verdadeira democracia.

Esta democracia que nos tentam montar, mesmo à frente do nariz, é a Feira das Pechinchas. Com a ajuda preciosa dos grandes meios de comunicação, já o disse aqui também: programas televisivos para consumo de massas, para os distraídos da vida e das coisas da cidadania; notícias de telejornal muito bem geridas e trabalhadas com a opinião política oficial, superficial e conformista. É claro que há excepções, mas são excepções.

Como uma feira de pechinchas, sempre enganosa, há que dar aos distraídos algumas novidades. Anúncios de isto e de aquilo. E isto ainda funciona. Verdade! Ainda funciona!

34 anos… A verdade é que na altura do 25 de Abril eu já tinha 16 anos e cabeça para pensar. E as minhas expectativas nunca foram muito elevadas. O que me foi salutar, apesar de tudo. É que desde cedo aprendi, por observação atenta e leituras várias, que o ser humano não é muito fiável.

Em breve fiquei esclarecida: a maioria silenciosa, a demissão de Spínola, a debandada dos portugueses de África, a histeria de Vasco Gonçalves, o Copcon…

A única abertura, a única inovação anímica e inteligente, vi-a em Sá Carneiro. Mas a esperança acabou depressa com a sua morte trágica. E com a mediocridade do que se seguiu… até hoje.

Com um breve intervalo: voltei a rever-me no rigor do governo de coligação PSD-CDS/PP que se seguiu ao abandono do barco por Guterres. Mal eu sabia que Durão Barroso iria fazer o mesmo e que Jorge Sampaio iria preparar uma cilada a Santana Lopes…

Portanto, não posso estar satisfeita com esta democracia. Nem posso dizer que nela me revejo. Como cidadã deste país, detesto ser tratada como uma imbecil cujo voto é a única coisa que querem de mim.

Por outro lado… Vejo sinais de mudança, nos mais jovens. E isso é refrescante e animador. Discurso inteligente, fundamentado, rigoroso, aprofundado. De pessoas habituadas a pensar, a observar, a questionar.

 

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publicado às 12:14

Padre António Vieira, uma das nossas melhores referências

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.02.08

Foi no Liceu que o li pela primeira vez, motivada pela introdução do professor de Português. Já nessa altura o impacto foi enorme! Não apenas pela escrita brilhante, mas pelas ideias, absolutamente geniais.

Personagem fascinante, que nos inspira e desafia, como povo e como país. Ainda hoje.

Para recolher estes textos, e como não encontrava o meu livro de bolso de estimação, tive a sorte (feliz coincidência) do jornal “Correio da Manhã” ter assinalado os 400 anos do seu nascimento. Assim, foi a este livro que recorri: “Padre António Vieira, o imperador da língua portuguesa”, coordenação de José Eduardo Franco, ed. Correio da Manhã, 2008.

Dos Sermões de S. António:

Do primeiro, pregado em Roma: “… Será o argumento do meu discurso este: Que S. António foi luz do mundo, porque foi verdadeiro Português: e que foi verdadeiro Português, porque foi luz do mundo. …” (pág. 108)

“E se António era luz do mundo, como não havia de sair da pátria? … Saiu como luz do mundo, e saiu como Português. … Saiu para ser grande; e porque era grande, saiu. …” (pág. 112)

“Houve-se Deus com os Portugueses, como Agricultor de luzes. Semeia o Agricultor em pouca terra o que depois há-de dispor em muita. Pouca terra era Portugal; mas ali fez Deus um Seminário de luz, para a transplantar pelo mundo. …” (pág. 113)

“Mas… como S. António era a primeira luz destas luzes ela foi também a que lhes abriu, e mostrou o caminho saindo do Poente para Levante: não é este o curso do Sol: porém assi havia de ser, porque era António Sol, que levava a saúde nas asas… Assi António, e assi os Portugueses. … E porque o Sol quando desce a alumiar os Antípodas, mete o carro no mar, e banha os cavalos nas ondas, para que assi o fizessem também os Portugueses, deixa António a terra, engolfa-se no Oceano, e começa a nevegar, levando o pensamento, e a proa na África, que também foi a primeira derrota, e a primeira ousadia dos nossos Argonautas. …”

“… Porque o caminho, que fizeram os Portugueses, era caminho que ainda não estava feito. Por mares nunca dantes navegados. … Mareavam sem carta, porque eles haviam de fazer a carta de marear. … Navegavam sem carta, nem roteiro, por novos mares, por novos climas, com ventos novos, com Céus novos, e com Estrelas novas; mas nunca perderam o tino, nem a derrota; porque Deus era O que mandava a via… Estes eram os cavalos intrépidos, e generosos. …” (pág. 114)

Do segundo: “Assim como há dias claros, e escuros, assim o será o dia de hoje em comparação do passado. Hoje faz um ano … preguei aos Portugueses as luzes da sua Nação: agora lhes descobrirei a eles, e a todos as sombras dessas mesmas luzes: …” (pág. 120)

“… Estas sombras pois, que sempre seguem, e acompanham a luz, serão hoje a segunda parte daquelas mesmas luzes … Então ouviram o que somos, agora ouvirão o que não devêramos ser. …” (pág. 121)

“Vede agora se tinha eu razão para dizer, que é natureza, ou má condição da nossa Lusitânia não poder consentir que luzam os que nascem nela. …” (pág. 123)

“Temos visto que as obras ilustres, e gloriosas, que S. António obrou nas terras estranhas, não as havia de fazer na sua, e que ainda que as fizesse nela não haviam de ser vistas, agora digo, e concluo, que ainda que fossem feitas, e vistas, por isso mesmo não haviam de ser boas …” (pág. 136)

“… Por isso S. António saiu da sua com Divina prudência e providência: e porque esteve fora da terra das sombras, por isso a luz das suas obras luziu, e resplandeceu de maneira, que os olhos dos homens puderam ver obras de tanta luz …” (pág. 141)

Leio-o sempre fascinada. Porque é pura poesia. Metáforas e Parábolas. E um raciocínio sempre voador e luminoso. Tal como S. António, também António Vieira voou porque saiu deste “cantinho”, deste “canteirinho da Europa”.

 

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publicado às 17:58


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